terça-feira, 1 de junho de 2010

regicidio


em ano de centenario da repúbilca aqui fica o esxcelente texto retirado daqui http://ponteeuropa.blogspot.com/2010/02/manuel-buica-e-alfredo-costa-tombados.html
Estimam-se os primeiros reis na razão directa dos infiéis que abateram e das terras que lhes tomaram. O assassinato do Conde Andeiro é exaltado por ter sido útil à dinastia de Avis, tal como em 1640 se exultaria com o corpo de Miguel de Vasconcelos crivado de balas a ser atirado por uma janela. A restauração da independência do reino de Portugal transformou o homicídio em acto heróico e a vítima em traidor, tornando odioso o nome Miguel antes de o denegrir ainda mais o homónimo candidato a rei absolutista.

Ninguém lamenta hoje os crimes da evangelização do Brasil ou a crueldade com que os vice-reis da Índia subjugaram os povos indígenas e, muito menos, se lamentam dezenas de milhares de mortes que D. Nuno infligiu aos castelhanos sem que a frieza com que os aviou, a evocarem um santo diferente do seu, lhe tolhesse a canonização ou beliscasse a heroicidade, para orgulho dos portugueses.

D. João II esfaqueou ele próprio um primo e cunhado e, por ordem sua, foi executado o duque de Bragança, o bispo de Évora e muitos outros, sacrificados a objectivos políticos que fizeram dele o rei mais venerado da História de Portugal.

Hoje, condenamos sem hesitação a escravatura, o Santo Ofício, a evangelização dos índios, as perseguições aos judeus e a pena de morte, mas seríamos hipócritas se denegríssemos D. Afonso Henriques, o Mestre de Avis, Nuno Álvares, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque ou o marquês de Pombal e os evocássemos pelos que mataram e não pela forma como ajudaram a moldar a pátria que nos legaram.

Sem referir a arraia miúda, cujos tormentos não soem emocionar os povos, é oportuno lembrar os Távoras e recordar os liberais que sofreram as crueldades miguelistas, antes de prestar homenagem a Manuel Buíça e Alfredo Costa, Libertadores da Pátria Portuguesa, a quem a Associação do Registo Civil e do Livre Pensamento homenageou com um mausoléu da autoria do escultor Júlio Vaz, aonde, durante a 1.ª República, se fizeram romagens de grande fervor patriótico.

O rei de uma coroa odiada, o monarca desacreditado que desprezava o país, perante a degradação ética e a bancarrota, indiferente às vidas que sacrificava, assinou friamente a suspensão da Carta Constitucional e deu a João Franco o poder de fechar o Parlamento, encerrar jornais, reprimir manifestações e encarcerar oposicionistas para os desterrar para Timor. Ao suspender a Carta, D. Carlos responsabilizou-se pela ditadura de João Franco e decidiu o seu trágico fim.

Foi nesse contexto que Manuel Buíça e Alfredo Costa foram designados para eliminar o rei. E cumpriram, sabendo que morriam. Não foram assassinos, como os monárquicos e os sectores reaccionários proclamam. Executaram uma sentença, sentindo ser um dever cívico, e imolaram-se num acto de suprema coragem para evitarem o degredo e a morte aos correligionários e à Pátria a violência da ditadura.

A notícia do regicídio gerou uma onda de alívio nos portugueses que reclamavam, há muito, a cabeça do rei. Apesar dos riscos houve quem fosse apertar a mão do cadáver ensanguentado de Manuel Buíça que ousara libertar a Pátria de quem a designava como a piolheira.

Manuel Buíça e Alfredo Costa foram idealistas que lutaram pela liberdade. Mataram por patriotismo e caíram como heróis. Foram mártires que honraram a causa que defendiam, dando a vida pela liberdade, vertendo o sangue pela República.

O poeta José Gomes Ferreira escreveu: “Agradeço a meu pai a coragem com que, no momento do funeral do Rei, me levou a visitar os covais dos regicidas no Alto de S. João. Amo os mortos malditos e escorraçados” (in: “Calçada de Sol”)

Guerra Junqueiro, o poeta admirado por Unamuno, o que melhor exprimiu o sentimento do povo português, desabafou: «Não mataram o rei; suicidou-se. O rei era um monstro maléfico, perturbador consciente de quatro milhões de criaturas» e acrescentou, depois, «Lamento, de olhos enxutos, a execução do monarca. Mas, se tivesse o dom de o ressuscitar, não o levantaria do seu túmulo». (ALMANACH D’O MUNDO para 1909).

Alfredo Costa e Manuel Buíça foram assassinados com inaudita crueldade pela polícia do ditador João Franco depois de matarem o rei com a noção da sorte que os esperava. Sabiam que não teriam, nem esperavam ter, benefícios pessoais do acto. Quiseram, tão só, libertar a Pátria da ditadura, eliminando o rei inapto que, ao assinar a suspensão da Carta Constitucional, perdeu a legitimidade, tornou-se cúmplice da repressão e assinou a sentença da sua morte.

Honrar a memória de Alfredo Costa e Manuel Buíça não é pactuar com a violência nem fazer a apologia do homicídio, é cumprir o dever cívico de dignificar dois heróis que a ditadura salazarista, de pendor monárquico, caluniou e desqualificou. É situar o acto no tempo e explicar as circunstâncias. É pagar a dívida aos que, sem nada esperarem em troca, foram capazes do sacrifício supremo por um ideal. Não é o regozijo pela morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro que aqui se manifesta, é o tributo de respeito pela vida imolada no altar da Pátria e pelo sofrimento e humilhação de que foram vítimas os descendentes dos regicidas cuja grandeza moral não residiu no acto que praticaram mas na força das convicções, na abnegação com que se sacrificaram e no sentido da honra.

A carta escrita por Manuel Buíça, em 28 de Janeiro, quatro dias antes do regicídio, com a assinatura reconhecida pelo tabelião Motta, na rua do Crucifixo, em Lisboa, revela bem o carácter e a dimensão ética do homem de coragem, determinado e com profundo amor à pátria. Eis um comovente parágrafo:

«(…) Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos».
Ponte Europa / Sorumbático

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